segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Michael Moore, que previu ascensão de Trump, divulga 'lista do dia seguinte'

Para o cineasta, Trump é uma 'estrela de TV, cujo plano é destruir os dois partidos' e não há surpresa em sua vitória
por Redação RBA publicado 09/11/2016 14h21, última modificação 09/11/2016 15h04
REPRODUÇÃO/FACEBOOK/TRUMP
Trump
Michael Moore afirmou que todos devem parar de dizer que estão 'atordoados' e 'chocados'
São Paulo – O cineasta e ativista norte-americano Michael Moore, autor de artigo publicado em julho que previa a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, publicou hoje (9), em sua página no Facebook, um checklist com cinco pontos, que ele batizou de “lista do dia seguinte”, em referência aos desdobramentos da vitória do candidato republicano.
“Qualquer membro democrata do Congresso que não acordou esta manhã pronto para lutar, resistir e obstruir da mesma forma como os republicanos fizeram contra o presidente Obama, todos os dias, durante oito anos, devem sair do caminho e deixar àqueles de nós, que sabem marcar e liderar o caminho, a tarefa de parar a mesquinhez e a loucura que está prestes a começar”, afirma o item 3 da lista de Moore.
No texto no Facebook, o ativista também tenta dar um choque de realidade nos eleitores do partido Democrata, da candidata Hillary Clinton, que se dizem chocados com o resultado destas eleições: “Todos devem parar de dizer que estão 'atordoados' e 'chocados'. O que você quer dizer é que você estava em uma bolha e não estava prestando atenção aos seus colegas norte-americanos e seu desespero”, afirma, destacando que a raiva e a necessidade de vingança contra o sistema tem crescido nos Estados Unidos de forma negligenciada pelos dois principais partidos, o Democrata e o Republicano.
Moore também destaca que Trump é uma “estrela de TV, cujo plano é destruir os dois partidos” e que não há surpresa em sua vitória. “Ele é criatura e criação da mídia, que nunca terá poder sobre isso”, afirma. Para o cineasta, o resultado desta eleição ocorre à revelia da preferência popular, que claramente sinalizava a preferência por Hillary. “A única razão pela qual ele é presidente é por causa de uma ideia do século 18, arcaica, insana, chamada Colégio Eleitoral”, escreveu.

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2016/11/michael-moore-que-previu-a-ascensao-de-trump-divulga-lista-do-dia-seguinte-2434.html






As vanguardas e a dificuldade da

imprensa padrão em interpretar a disputa social








Os movimentos sociais em curso e em luta no Brasil e em diversas partes do mundo não apenas desafiam governos e estruturas que enfrentam e se contrapõem como também são um desafio de interpretação pra todo mundo. Para os que interpretam e escrevem a respeito, os que produzirão materiais de análise, de arte, informativos ou o que seja, com a intenção e na tentativa de explicar, posicionar, ver em perspectiva e observar o movimento das forças políticas, sociais e culturais. E também com o desejo de quase prever o desenrolar dessa disputa para saber que país e que sociedade teremos a seguir. Há análises que nos ajudam a perceber quem está nas ruas, o que está em jogo, nos fornecendo informações que não possuíamos antes e, especialmente, pontos de vista que não dispúnhamos. Mas e a grande imprensa? A imprensa padrão? Não sei se escolho bem a designação mas falo da imprensa que pretende hoje manter sua hegemonia de interpretação, nortear a sociedade para a ler os acontecimentos sociais e, ao mesmo tempo, tem dado maior espaço à análise de seus especialistas do que tem primado pela busca e checagem de informações, temas tão caros ao jornalismo clássico.
Pensando no que dizem Bird e Dardenne sobre a produção jornalística cotidiana como forma de dar tranquilidade, familiaridade e ordenação à sociedade, tenho observado como jornalistas e comentaristas dos grandes veículos, de grande audiência, especialmente de televisão, têm lido os movimentos sociais, suas manifestações e disputas. A capacidade de transformar a informação e a análise em afirmações precisas e simples no sentido do texto e da capacidade síntese têm dado lugar a uma falta de complexidade do olhar e a erros grosseiros mesmo. A perda da capacidade de análise tem sido proporcional talvez ao aumento do espaço para analistas televisivos. Quando na verdade deveria ser o oposto. Já que os comentaristas ganham espaço, espera-se que se qualifiquem nas suas análises, ângulos, objetos e caminhos pelos quais nos conduzem para olhar um acontecimento. Mas não. Penso também na reflexão de Ken Doctor para o Nieman Foudation, centro de estudos em jornalismo, relacionando a redução nos investimentos em produção de notícia e em contratação de jornalista com a queda da qualidade dos jornais, nacionais e também locais nos Estados Unidos. Ele diz que a redução do investimento não tinha como não resultar em um prejuízo para a sociedade. Acho que acontece o mesmo no Brasil.







Uma boa análise pode ser já produzida ao se observar a cobertura das movimentações de oposição ao governo Trump que começaram paralelas à sua posse no dia 20 e da anunciada Marcha das Mulheres, organizada e bem sucedida, para protestar contra as pautas anunciadas pelo novo governo no que se refere a direitos humanos, mudanças climáticas, imigração, saúde pública, enfim, praticamente todos os principais temas que o governo Obama e a sociedade americana conseguiram produzir conquistas. Na Globonews poderiam ter falado do protagonismo das mulheres, que no momento em que vários grupos são afetados, são a força social que assume a vanguarda do movimento. Poderiam comparar com o 2016 no Brasil, onde as mulheres foram também vanguarda da disputa política diversas vezes. Foi uma candidata mulher que perdeu as eleições nos Estados Unidos, mas que ganhou no voto popular. Foi no Brasil que foi derrubada uma presidenta e ascendeu uma nova figura de mulher como a atual primeira dama. Enfim, só pensando nas questões de gênero já se tem possibilidade de análise para um Jornal das Dez inteiro. Mas a escolha das análises, que reúnem jornalista em estúdio no Brasil e em outras cidades do país e dos Estados Unidos, é um descrédito de que a oposição ao governo gere algum tipo de freio ou de mudança no governo Trump. E não porque ele seja apenas impermeável, mas porque os jornalistas questionam a capacidade objetiva da oposição de gerar mudanças sociais. É o tal negócio. Quando Pedro fala de Paulo, isso fala mais sobre Pedro do que sobre Paulo. A questão não é a viabilidade dos protestos de demoverem Trump mas essa leitura nos leva a conhecer a capacidade (ou falta dela) dos analistas-jornalistas de entender o movimento social, suas possibilidades e complexidade.
A Globonews queria saber como objetivamente a oposição, materializada nos protestos de rua desde a posse de Trump, que teve a participação de atores e outros ícones da classe artística americana, irá conseguir alguma coisa com Trump. Um dos comentaristas parecia que esperava do movimento um poder objetivo e de decisão que apenas os governantes têm. E para além desse poder nada mais adiantaria. Talvez a questão fosse pensar que a democracia precisa ter ainda mais formas de participação direta e permanente do que apenas o voto para construir os rumos de um país e não deixar tudo na caneta do presidente. Avaliar que um presidente há tempo não era tão impopular e capaz de gerar, ao mesmo tempo, um esvaziamento de sua posse em comparação com o antecessor e protestos globais. Mas a ênfase foi sobre a ineficiência dos protestos. Muito diferente das coberturas que vimos meses antes no Brasil, cujo tom não apenas dos comentários mas de toda a movimentação de câmeras e repórteres e de tempo de cobertura incentivavam a participação e anunciavam que a pressão popular nas ruas, associada à própria cobertura, seria não só capaz de pressionar um governo por mudanças como derruba-lo. Quando os temas são direitos humanos, igualdade de gênero, defesa dos imigrantes e saúde pública, a falta de objetividade é apontada como motivo de ineficiência dos protestos. E não importa se há apoio dos famosos neste caso ou volume de pessoas nas ruas. A falta de uma suposta pauta objetiva ou de poder institucional condenará os protestos ao fracasso.







No dia seguinte a Marcha das Mulheres demonstra que tem mais consciência do complexo cenário político do que os analistas-jornalistas brasileiros. Antes de mais nada, estão as mulheres novamente na vanguarda da luta social contemporânea. Seja pela misoginia em alta ou pela capacidade histórica de auto-organização, os movimentos de mulheres têm sido a ponta dos protestos e da disputa política no Brasil e agora globalmente. Talvez também se explique porque é o movimento hoje que mais tem consciência e expressa sua diversidade ou da diversidade necessária e existente em qualquer coletivo. A Marcha das Mulheres Contra Trump demonstrou capacidade de reunir a complexidade dos que não apoiam os discursos preconceituosos do novo presidente ao mesmo tempo que avisam de início que as manifestações são afirmativas e maiores que o próprio Trump. E por isso se chama Marcha e não protesto. Porque querem defender direitos e dizem que “direito das mulheres é direitos humanos”. E traçam ações e defesas que pensam de forma ampla e também no cotidiano. Pensam sua atuação para além da reivindicação, não por não acreditarem na pressão sobre os governantes, mas porque fazerem parte de um processo que reflete sobre os mecanismos de autogestão social que se associe ao voto e que dê mais poder popular e à sociedade organizada. A lista de princípios trata de mudanças na Constituição com base na igualdade de gênero até defesas amplas sobre direitos dos imigrantes e da comunidade LGBT. A organização social que se traduz em demonstrações nas ruas, tomando este caso específico do momento americano mas também em outros cenários, considerando a sua diversidade e a complexidade de enfrentar o poder institucional, tem consciência do lugar onde atua. Os protestos anti-Trump e a Marcha das Mulheres têm um certo pragmatismo intrínseco à sociedade americana, e se constroi entre a pressão popular e as ações do cotidiano. O mais difícil é encontrar boas análises, especialmente no jornalismo standard, e neste texto em especial me refiro ao brasileiro, capazes de perceber essa diversidade, de avaliar papeis, limites e até possibilidade de ir além do que se possa considerar no caso de uma mobilização permanente. E diz mais ainda sobre como os mesmos comentaristas-jornalistas percebem a partir daí as manifestações populares no Brasil, a sua complexidade, idiossincrasias e como produz discursos que as acham eficientes quando derrubam governos populares mas ineficazes quando não são ‘objetivas’ ou enfrentam presidentes não permeáveis ou com maioria no Congresso Nacional.
O discurso standard do jornalismo tem dificuldade com análise, não consegue comentar sobre as forças sociais e sobre a permanente disputa que, sim, é desigual. Os protestos (lá ou cá) terão que ter grande volume para encarar a vitória de Trump e o poder que hoje ele manipula. Mas as pessoas, apesar de organizadas e buscando construir estratégias que garantam mais apoio popular para atingir as fissuras do poder, não protestam apenas pensando se são eficientes. Elas protestam porque é justo, porque têm uma ou várias causas, porque sozinhas jamais conseguiram nada e se quiserem que algo mude precisarão estar juntas.
O quanto é objetivo ou eficiente não deve ser cobrado. Apesar disso, e considerando a capacidade pragmatica da sociedade norte-americana, ouvi o trecho do discurso da atriz Scarlett Johansson quando pedia que no dia a dia as pessoas reforçassem o apoio a instituições que defem causas sociais e de direitos humanos, que doassem para essas causas, que se voluntariassem nas suas comunidades em instituições que trabalhassem pela igualdade de gênero e todas as lutas que estão ameaçadas com a chegada da Trump ao poder. Justamente pensando em resistir através da capacidade de construir a sociedade e a governança com outras ferramentas que contraponham um governo conservador com um governante fascista. Aliás, outro comentário dos jornalistas-comentaristas é que não se pode chamar Trump de fascista porque ele foi eleito. Para além da questão de que no voto popular ele ficou em segundo, não entenderam que uma pessoa, governante ou não, pode ser apontada como fascista se defender ou realizar atitudes ou políticas fascistas, mesmo que tenha ascendido ao poder através do voto. Os nazistas chegaram ao poder na Alemanha pelo voto popular, galgando ano após ano mais cadeiras do Parlamento alemão (o Reichstag). O jornalismo em crise passa por essa incapacidade de leitura social.







Fontes de imagens: jornais online como Público, Estadão, UOL, CNN.








quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O mundo paralelo dos desastres de Photoshop da Abril e da Veja.

Por Pedro Zambarda


No final do ano, a velha revista feminina Claudia divulgou a capa de sua primeira edição de 2016. A personagem era a apresentadora da TV Record, Ana Hickmann, com a chamada “ginástica, filho, trabalho, dieta: acredite, a rotina dela é quase igual a sua” (então tá).

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Choveram reclamações sobre os efeitos operados pelo programa Adobe Photoshop, que apaga imperfeições físicas, emagrece corpos, remove estrias e pode transformar todo mundo em algo inexistente no mundo real.

Mesmo sendo do meio, Ana Hickmann ficou com aparência de uma boneca de porcelana. Pálida, chegou a ser comparada a uma versão desidratada da cantora de country pop Taylor Swift.

A própria Ana fosse reclamou na internet. “Gente!!! Essa não sou eu”, disse no perfil Claudiaonline no Instagram. No dia seguinte, o marido de Ana Hickmann, Alexandre, postou uma foto do casal e tirou sarro com a legenda: “SEM PHOTOSHOP”.

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As barbeiragens com o photoshop na Abril não são uma novidade. A “mulher alface da Veja” foi uma das atrocidades da editora em sua história. O erro gráfico foi justamente deslocar para a direita as pernas de uma mulher em uma capa sobre dieta.

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Mas o photoshop da Veja também serve a propósitos mais sombrios e escusos. Figuras do noticiário político são transformadas em vilãs apenas escurecendo retratos. Em 2015, o ex-presidente Lula foi retratado como estando prestes a ser preso e, numa capa posterior, colocado em uma roupa de detento.

Dilma está invariavelmente em imagens obscurecidas. Por outro lado, o juiz Sergio Moro da operação Lava Jato, o vice-presidente Michel Temer e o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso aparecem radiantes.

De uma maneira maniqueísta e quase infantil, a Veja mexe nas fotos dos petistas de modo a aparecer como monstros enquanto seus críticos são heróis. É como se a realidade não fosse suficiente para se enquadrar no universo superficial da publicação. Anteriormente, Aécio Neves e até José Serra foram retratados como figuras iluminadas, nos anos de 2014 e 2010, respectivamente. Num jogo de luzes e sombras, o Photoshop da Veja oculta a verdade.

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As concorrentes não fazem uma manipulação tão forçada. A Istoé e a Carta Capital tendem a usar imagens mais neutras e chamam atenção para suas opiniões em chamadas e montagens. Já a Época adotou desde 2014 imagens mais escuras para todos os personagens da política nacional.

“A promessa de resgatar o ânimo do país não pode estar inscrita num rosto — glamoroso ou magnético — claramente simplificado. As instituições brasileiras exigem mais do que feições e fisionomias carismáticas para serem devidamente reabilitadas”, disse o jornalista Alberto Dines em seu Observatório da Imprensa, sobre a última capa da Veja em 2015, chamando Sergio Moro de salvador do ano.

Dines, não por acaso, relembra no mesmo artigo que o livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”) de Adolf Hitler recentemente caiu em domínio público e seu relançamento provocou polêmica por reviver o pensamento simplista do nazismo, do “bem contra o mal”.

A Veja e as manipulações gráficas da editora Abril desfiguram, obscurecem e confundem o debate público. “[Elas] não parecem editadas por jornalistas, mas por consumados semiólogos e psicolinguistas a serviço de uma narrativa balizada por símbolos subliminais”, diz Alberto Dines.

De Ana Hickmann até o novo herói jurídico antipetista, Sergio Moro, a imprensa sem pluralidade vive num universo paralelo de celebridades e ícones inventados.

Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-mundo-paralelo-dos-desastres-de-photoshop-da-abril-e-da-veja-por-pedro-zambarda/

terça-feira, 17 de novembro de 2015

'Há uma operação de enfeitiçamento em curso', diz sociólogo

Em seminário do Fórum 21, professor denuncia que as versões da velha mídia reverberadas pelas redes sociais abalaram a relação entre verdade e ficção


Najla Passos
 
reprodução















“A mídia não cobre mais os acontecimentos. Ela gera versões e tenta transformá-las em verdade”, alertou o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp e membro do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP, que participou da mesa Comunicação e Novas Tecnologias, durante os “Seminários para o avanço social”, promovido pelo Fórum 21, em São Paulo de 9 a 13 de novembro.

De acordo com ele, mesmo após o advento das redes sociais e dos 13 anos de governos petistas, o sistema da comunicação no Brasil é ainda extremamente concentrador e preocupante porque, historicamente, o PT não soube avaliar o real poder da mídia e a esquerda não conseguiu formular uma análise crítica do seu potencial de formação de consensos.

Santos afirma que, desde a década de 80, o PT já contava que, quando chegasse ao poder, teria a velha mídia brasileira ao seu lado, devido à postura dos oligopólios, como as Organizações Globo, de sempre se posicionarem a serviço dos governos de plantão. Mas não foi o que aconteceu. Para agravar, as redes sociais amplificaram o potencial da mídia de repetir versões para transformar fatos em verdade, o que gerou o quadro atual.

“A esquerda não tem uma visão crítica em relação aos meios de comunicação. E se ela não consegue ter essa relação em relação à velha mídia - se o máximo que consegue é propor a democratização e ponto - imagina com as novas mídias”, criticou.

Para o professor, o quadro é de tamanha gravidade que a relação entre verdade e mentira, entre verdade e ficção, está completamente abalada. “Nós chegamos a um ponto em que os ladrões gritam ‘pega ladrão’ para os não-ladrões. E isso cola! É uma inversão de valores gigantesca”, ironizou.

Linguagens totalitárias

O sociólogo sustenta que a dimensão totalitária que a linguagem da velha mídia, reverberada pelas redes sociais, adquiriu no país só encontra precedentes no período pré-nazista e na Guerra Fria. “A mídia é uma parte não só ativa na definição do que acontece, mas é parte ativa na criação de ficções, de versões do que ocorre”, ressaltou.

Para piorar o quadro, a esquerda não consegue sequer reagir aos sucessivos ataques, porque seus instrumentos são poucos e de curto alcance, enquanto os dos oligopólios que dominam a mídia no país vão longe e promovem uma espécie de “enfeitiçamento” contínuo. “Se você coloca só um pouquinho de voz de um lado, não é suficiente para fazer contraponto. A assimetria é enorme”, destacou.

O resultado, conforme ele, portanto, é um campo de versões e mentiras deliberadas, programadas por uma máquina poderosa, que tem uma capacidade de mobilização das mentes das pessoas bastante importante. “Não só a classe média já foi ganha, como também existe a uma capilaridade em setores beneficiados pelas políticas desse governo que começam a se submeter a este enfeitiçamento. Há uma operação de enfeitiçamento em curso”, denunciou.

Como exemplo, Santos cita as pequenas manifestações por impeachment ou a favor de “intervenção militar” que reúnem meia dúzia de manifestantes e um boneco, mas ganham um espaço enorme no noticiário e na agenda política do país, em detrimento de outras muito maiores organizadas pelos movimentos sociais. “Há todo um encadeamento de redes de transmissão que fazem com que não-acontecimentos se tornem acontecimentos, com o objetivo de manter no ar permanentemente a perspectiva de golpe”, alertou.

O não-diálogo

Para o professor, este enfeitiçamento está na base da falta de diálogo que domina o país. “Todo mundo aqui já tentou argumentar com uma dessas pessoas de direita, no sentido de demonstrar os absurdos que ela está dizendo, e bateu em um muro. O esclarecimento não resolve. Não há possibilidade de diálogo nem de discussão, porque o irracional surge. Elas não querem ser esclarecidas. São movidas pelo ódio e o ódio é visceral. E esse ódio é alimentado o tempo todo pela mídia e pelas redes sociais”, argumentou.

Para o professor, o mais grave é que o governo sequer reage a essa ofensiva, tratando essa explosão da linguagem totalitária no país como natural ou próprio da democracia. “Nem corte de grana para emissoras houve. A reação do governo é de submissão e isso estimula o avanço conservador”, acrescentou. Santos sustenta que as forças de esquerda precisam compreender os sinais de perigo e agir. “A linguagem não é só sentido e produção de conteúdo. A linguagem também é ação. E a ação da linguagem totalitária é mobilizar o negativo das pessoas”, denunciou.

O mercado da atenção

Professor de Sistemas de Informação da USP, Mário Moreto Ribeiro, fez uma comparação entre o ambiente do mundo do trabalho e o das redes sociais, que hoje exigem a atenção total do trabalhador/internauta, em uma desgastante briga por sua atenção. “Na internet hoje, o que está em disputa é essa atenção total. Não só o tempo [do internauta], mas a atenção”, afirmou.

Segundo ele, o capital se apropriou do que deveria ser espaço de interação e lazer para os trabalhadores e o transformou em mais uma mercadoria. É por isso que ele classifica o esforço exercido por milhares de usuários das redes sociais para formularem comentários e disputar a atenção de seus seguidores, gratuitamente, é um tipo de trabalho voluntário que contribui para valorizar a marca da empresa, e gerar lucro para o capital.

“Escrever no facebook também é um trabalho. Você gasta tempo, valoriza a empresa. E disputa a atenção dos colegas. Existe um mercado da atenção nas redes sociais. E a gente está disputando esse mercado quando escreve no Facebook. Mas não é um mercado aberto. Ele é controlado por uma empresa”, alertou.

Fonte: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FMidia%2F-Ha-uma-operacao-de-enfeiticamento-em-curso-diz-sociologo%2F12%2F34994

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Para New York Times, Globo é a TV irreal que ilude o Brasil: “Novelas vazias e telejornais de tia velha”

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No ano passado, a revista “The Economist” publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que “91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano”.

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.

Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.

Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. “À luz da História, contudo”, o grupo disse, “não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original”.

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e “do bem”. Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário “Jornal Nacional” a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente “É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água”.

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. “Dunga disse que gosta de sorrir”, disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como “o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade”.

O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. “A Regra do Jogo”, por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

Fonte: http://www.tonnywashington.com/index.php/2015/11/11/para-new-york-times-globo-e-a-tv-irreal-que-ilude-o-brasil-novelas-vazias-e-telejornais-de-tia-velha/

Manipulação da opinião pública através da mídia – segundo Chomsky

Publicado em 25.11.2013
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Manipulação da opinião pública através da mídia – segundo Chomsky
Linguista genial, filósofo desconcertante e ativista político no mínimo polêmico, Avram Noam Chomsky, nascido em Filadélfia em 7 de dezembro de 1928 tem seu nome associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional e evidentemente à célebre Hierarquia de Chomsky, que versa sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais.
Além de seu premiadíssimo trabalho acadêmico, tanto como professor quando pesquisador em linguística, Chomsky tornou-se muito conhecido pela defesa de suas posições políticas de esquerda — descrevendo-se como socialista libertário — bem como por seu corrosivo posicionamento de crítico contumaz tanto da política norte-americana quanto de seu uso da comunicação de massa para manipular a opinião pública.
Em uma de suas frases de efeito, Chomsky afirma que “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cacetete (ou repressão da polícia política) significa para o estado totalitário”.
Em seu livro A Manipulação do Público, em coautoria com Edward S. Herman, Chomsky aborda este tema com profundidade apresentando seu modelo de propaganda dos meios de comunicação, documentado com numerosos estudos de caso, extremamente detalhados.
Um viés social pode ser definido como inclinação ou tendência de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que infere julgamento e políticas parciais e, portanto, injustas para uma sociedade tida como um sistema social integral.
A abordagem de Chomsky explicita esse viés sistêmico dos meios de comunicação, focado em causas econômicas e estruturais, e não como fruto de uma eventual conspiração criada por algumas pessoas ou grupos de pessoas contra a sociedade.
O modelo denuncia a existência de cinco filtros, gerados por esse viés sistêmico, a que todas as notícias são submetidas antes da publicação. Filtros, que combinados distorcem e deturpam as notícias para o atendimento de seus fins essenciais.
1.o Filtro — PROPRIEDADE: A maioria dos principais meios de comunicação de massa pertence às grandes empresas.
2.o Filtro — FINANCIAMENTO: – Os principais meios de comunicação obtêm a maior parte de sua renda, não de seus leitores, mas sim de publicidade (que, claro, é paga pelas grandes empresas).
Como os meios de comunicação são, na verdade, empresas orientadas para lucro, o modelo de Herman e Chomsky prevê que se deve esperar a publicação apenas de notícias que reflitam os desejos, as expectativas e os valores dessas empresas que os financiam.
3.° Filtro — FONTE: As principais informações são geradas por grandes empresas e instituições. Consequentemente os meios de comunicação dependem fortemente dessas entidades como fonte de informações para a maior parte das notícias. Isto também cria um viés sistêmico contra a sociedade.
4.° Filtro — PRESSÃO: A crítica realizada por vários grupos de pressão que procuram as empresas dos meios de comunicação, atua como uma espécie de chantagem velada, para que os grandes meios de comunicação de massa jamais saiam de uma linha editorial consoante com seus interesses, muitas vezes à revelia dos interesses de toda a sociedade.
5. Filtro — NORMATIVO: As normas da profissão de jornalista calcadas nos conceitos comuns comungados por seus pares, muitas vezes estabelece como prioritário a atenção ao prestígio da carreira do profissional (proporcionalmente ao salário).
Prestígio esse obtido pela veiculação de determinada notícia, sempre em detrimento do efeito danoso à sociedade oriundo da manipulação dos fatos (por exemplo o sensacionalismo) com o objetivo de atender o mercado ( e também, novamente proporcionar prestígio tanto ao profissional quanto ao canal noticiante, como dito antes).
A análise de Chomsky descreve os meios de comunicação como um sistema de propaganda descentralizado e não conspiratório, mas mesmo assim extremamente poderoso.
Tal sistema é capaz de criar um consenso entre a elite da sociedade sobre os assuntos de interesse público estruturando esse debate em uma aparência de consentimento democrático que atendem aos interesses dessa mesma elite. Isso ocorrendo sempre às custas da sociedade como um todo.
Para os autores o sistema de propaganda não é conspiratório porque as pessoas que dele fazem parte não se juntam expressamente com o objetivo de lesar a sociedade, mas, no entanto, é isso mesmo que acabam fazendo, infelizmente.
Chomsky e Herman testaram seu modelo empiricamente tomando pares de eventos que são objetivamente muito semelhantes entre si, exceto que um deles se alinha aos interesses da elite econômica dominante, que se consubstanciam no interesse das grandes empresas, e o outro não se alinha.
Eles citam alguns de tais exemplos para mostrar que nos casos em que um “inimigo oficial” da elite realiza “algo” (tal como o assassinato de algum líder, por exemplo), a imprensa investiga intensivamente e devota uma grande quantidade de tempo à cobertura dessa matéria.
Mas quando é o governo da elite ou o governo de um país aliado que faz a mesma coisa (assassinato de um líder ou coisa ainda pior) a imprensa minimiza e distorce a cobertura da história.
E ironicamente, tal prática é muito bem aplicada à maior parte dos escritos políticos de Chomsky , que têm sido ignorados ou distorcidos pelos detentores dos meios de comunicação mundiais.
Chomsky aponta também em seus estudos algumas estratégias usadas pelos donos do poder para realizar uma verdadeira “manipulação mental” feita através dos meios de comunicação, mas isso já é assunto para um próximo artigo.

Fonte: http://hypescience.com/manipulacao-da-opiniao-publica-atraves-da-midia-segundo-chomsky/

Monopólios da mídia: eis por que a onda conservadora caminha a passos tão largos

Apesar da democratização da mídia ser uma bandeira histórica das esquerdas, os governos Lula e Dilma muito pouco - ou quase nada - fizeram por ela.


Najla Passos
 
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A presidenta Dilma Rousseff sancionou na noite desta quarta (12) a lei que regulamenta o direito de resposta, uma conquista democrática da sociedade civil brasileira prevista na Constituição de 1988, mas suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2009, quando a corte cassou a Lei de Imprensa.

Mas não sem antes abrir mais uma concessão aos grandes oligopólios de mídia do país, em especial àquele que detém a maior emissora de TV da América Latina: Dilma vetou o artigo que permitia ao ofendido requerer o direito de fazer a retificação pessoalmente ou delegá-la a pessoa de sua escolha, quando se tratar de rádio ou TV.

Na prática, isso quer dizer que quando uma TV, como a Globo, veicular uma notícia falsa contra alguém ou alguma coisa, em uma reportagem calcada em belas imagens, áudios e infográficos, a correção posterior se restringirá àquela cansativa telinha azul em que os caracteres do texto vão subindo lentamente.

Parece coisa pouca. Mas se analisada do âmbito do que vem sendo a política de comunicação dos governos petistas nos últimos 13 anos, ajuda até mesmo a explicar porque a onda conservadora caminha a passos tão largos no país. No Brasil de Lula e Dilma, o direito à informação correta e de qualidade ainda é um bem precioso, restrito a uns poucos incluídos e interessados.

Em artigo publicado na edição do New York Times desta última quarta, a jornalista Vanessa Bárbara, colunista do Estadão que não deve ter encontrado espaço em casa para a pauta, questiona tanto a qualidade da informação jornalística quanto dos valores repassados pelos programas de entretenimento da emissora. Ela lembra que, embora com a audiência em declínio há décadas, a Globo ainda arrebata 34% dos telespectadores, enquanto a segunda emissora no ranking, a TV Record, não passa dos 15%.

A jornalista também alerta para o perigo que tal ‘presença onipresente’ pode significar. “Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política”, diz o texto.

Concessões e engavetamentos

Apesar da democratização da mídia ser uma bandeira histórica das esquerdas, os governos Lula e Dilma muito pouco – ou quase nada – fizeram por ela. Criada em 2007, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a rede pública de jornalismo do país que poderia fazer frente aos conglomerados privados, ainda tateia. Neste momento, seus jornalistas estão em greve, por reajuste salarial, melhores condições de trabalho e em defesa da comunicação pública de qualidade.

Os governos petistas também não avançaram nada na configuração de uma legislação capaz de regular e, assim, reduzir os abusos e garantir espaço democrático a um maior número de vozes. O assunto chegou a ser discutido quando o jornalista Franklin Martins assumiu a Secretaria de Comunicação, ainda no governo do ex-presidente Lula, mas voltou para a gaveta com a chegada de Dilma ao Planalto, de onde nunca mais saiu.

A falácia da mídia técnica


Até mesmo o critério de distribuição de verbas publicitárias adotado favorece os grandes oligopólios. Em especial, à Globo. Com a desculpa de definir um critério técnico, os governos petistas optaram por uma espécie de “ditadura da audiência”, como se não houvesse outros critérios possíveis, como a própria qualidade do produto jornalístico e/ou de entretenimento, ou mesmo argumentos jurídicos, como a previsão constitucional da pluralidade de meios.

Um estudo realizado por Antônio Lassance, doutor em Ciências Políticas e especialista em Comunicação e Políticas Públicas, mostra que o problema é ainda mais grave, porque até mesmo o cálculo feito pelo governo para contemplar esse critério de audiência não encontra lastro na realidade. A mesma Globo que perde audiência anualmente, conforme retratou o New York Times, recebe verbas publicitárias cada vez mais polpudas.

A última Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada pela Secom em 2014, mostra que, de cada 100 brasileiros, 95 têm o hábito de assistir tevê; 55 ouvem rádio, 48 navegam pela internet, 21 leem jornais impressos e 13, as revistas impressas. Em decorrência disso, Lassance calcula que, como os brasileiros têm o costume de consumir mais de uma mídia, uma divisão verdadeiramente técnica da verba publicitária destinaria 40,95% paras as TVs, 23,75% para as rádios, 20,69% para a internet, 9,05% para os jornais impressos e 5,60¨para as revistas.

Entretanto, em 2014, o governo federal destinou 72,20% da verba para as TVs, 9,09% para a internet, 6,90% para as rádios, 6,73% aos jornais e 5,09% às revistas. Uma distorção considerável que beneficiou sobremaneira as emissoras de TV. E, dentre elas, claro, a Globo.

“Portanto, com base em dados técnicos; dados de audiência; dados de pesquisa; dados oficiais; a mídia técnica do Governo Federal, de técnica, só tem o nome. Desrespeita os dados que a própria Secom tem em mãos, pelo menos, desde 2011”, escreveu ele no artigo Governo Federal financia mídia cartelizada, mais cara e menos plural, publicado no Observatório da Imprensa.

Fonte: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FMidia%2FMonopolios-da-midia-eis-porque-a-onda-conservadora-caminha-a-passos-tao-largos%2F12%2F34981