terça-feira, 2 de maio de 2017





Cultura inútil: Jornalismo, pós-verdade e o charuto das Filipinas

De George Orwell a Malcolm X, passando por Marguerite Duras, Frank Zappa e Barão de Itararé, Mouzar Benedito reúne as melhores frases e ditados sobre "jornalismo"!

 

Por Mouzar Benedito.

Tenho lido bastante sobre a era da “pós-verdade” e alguns comentaristas afirmam que o jornalismo será a vacina contra essa forma de espalhar notícias mentirosas. O “bom jornalismo”. Espero que ele venha. Mas começo aqui falando de uma crônica de João do Rio, no início do século XX.
A crônica se chama “O charuto das Filipinas”. Nela, ele fala de um povo filipino que tinha um costume muito estranho.
Mantinha num determinado lugar da casa um charutão enorme, de uso familiar: “Mede um pé e meio de comprimento e tem uma polegada de grossura”, em altura que qualquer criança pode agarrar. “Porque nas Filipinas todo mundo fuma: o velho patriarca, o moço patriarca, o filho do patriarca e mesmo os netos. Um filipino de três anos não deixa de puxar a sua fumaça no charutão desconforme. As crianças de mama variam a chupação entre a mamadeira e o charuto”.
Em seguida, sua crônica muda de assunto. Passeando numa avenida com um amigo, o sujeito foi-lhe indicando várias pessoas, falando mais ou menos assim: “Tá vendo aquele cara lá? Andava desocupado, não sabia o que fazer, agora é jornalista”. E aquele outro? Sem vocação para nada, agora é jornalista também.
Foi indo assim: “Um pequeno estudante arranja um emprego político e amanhece repórter, redator, jornalista. Um cidadão qualquer fracassou em todas as profissões, quebrou, foi posto fora de um clube jogo. Que faz? É jornalista. Aquele moço bonito, cuja bolsa parca só se compara à opulência da vontade de frequentar as rodas chiques, vê-se à beira do abismo? Não há hesitações. Faz-se jornalista…”.
Assim vai indo, até que encontra um tal de Eusébio, que acabara de se proclamar jornalista. “Mas, Eusébio, você entende de jornal?”, perguntou. No que o cara respondeu: “Quem não entende desse negócio de jornal? Jornalismo é como o cigarro. Não há quem não tenha experimentado”.
“Foi então que me lembrei do charutão das Filipinas”, conclui ele. “A imprensa carioca é bem esse charuto que toda a gente chupa, que anda por todas as bocas, dos pirralhos de mama aos velhos cretinos.”
Bom… A coisa mudou?
Depois, acho que em 1966, a profissão foi legalizada, passou-se a ser exigido diploma universitário para a sua prática. Deram um tempo para quem já praticava a profissão na época, para se registrar e tornar-se jornalista profissional legalizado. Muita gente não gostou, argumentando que era coisa da ditadura. Mas a lei pegou.
Nos anos 1970, eu gostava da imprensa alternativa, especialmente do Pasquim, do Opinião e do Movimento, e resolvi ser jornalista também, com intenção de juntar uma profissão, uma forma de garantir a sobrevivência, com a militância contra a ditadura. Jornalismo para mim seria isso: uma militância, com a vantagem de ser também um trabalho remunerado. Lembrava da frase de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.
Só que isso de ser uma forma de sobrevivência não valeu muito comigo, pelo menos por um bom tempo. “Antigamente” os pais diziam aos filhos que queriam ser jogadores de futebol e não aprendiam uma profissão, ou não estudavam: “Futebol não dá camisa a ninguém”.
Ainda estudante, ajudei a fundar o Versus e o Em Tempo, colaborei no Pasquim, no MovimentoBrasil MulherMulherio e outros jornais alternativos e passei a falar: “Jornalismo não dá camisa a ninguém. Ao contrário, tira a camisa”. Por causa da minha militância jornalística, perdi vários empregos fora dessa área, inclusive no Sesc, onde, entre várias outras coisas que fazia, pesquisava cultura popular no Brasil todo e ganhava bem.
Citei o Versus aí e lembro-me que nele a gente fazia o contrário do que se ensina em faculdades e que tento continuar fazendo: nossa proposta era colocar o jornalista no meio dos acontecimentos, sentindo, vendo, opinando, mas deixando claro que estava opinando. Acho uma grande hipocrisia isso de jornais e jornalistas que se dizem “neutros” mas manipulam as informações, favorecendo quem lhes convém e ferrando quem lhes convém ferrar.
Mais tarde comecei a trabalhar profissionalmente como jornalista e pensava: o que aprendi no curso de Geografia me dava muito mais condições de praticar a profissão do que no curso de Jornalismo. Então, achava que o diploma não era tão necessário assim. Pensava que talvez, para ter o direito de praticar a profissão, pudesse haver uma espécie de curso de pós-graduação para graduados em qualquer área, especialmente de ciências humanas, em que se estudasse técnicas relacionadas ao jornalismo e especialmente ética. Enfim, não defendia o diploma.
Mas começou-se então uma espécie de campanha contra a necessidade de diploma para ser jornalista, mas só para a profissão de jornalista. Todo mundo achava que podia ser jornalista, mas a gente não podia praticar a profissão dos outros. Advogados, sociólogos, economistas… Ora, tem que liberar geral, para qualquer profissão. Qualquer mesmo!
Argumentam que profissões como a de médico e a de advogado precisam de diploma porque tratam da vida e da liberdade das pessoas. Mas isso acontece sempre? E se alguém aprendeu por conta própria, porque não pode fazer um exame da ordem ou conselho dessas profissões (e todas as outras) e, se aprovado, praticar a profissão legalmente?
Um argumento (que concordo) é que a maioria das faculdades de jornalismo não forma bons profissionais. E que grandes jornalistas do passado não tinham diploma. Mas tanto numa coisa como na outra não é assim em qualquer profissão? Quanto à qualidade das faculdades, basta lembrar que a OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, tem um exame para que o formado na área faça e só se for aprovado possa praticar a profissão. E em qualquer área existem faculdades boas e faculdades ruins. E lembro que o advogado que mais admiro não era formado, aliás, não tinha nem curso primário. O rábula (advogado não formado) Luiz Gama exerceu a profissão com conhecimentos e ética invejáveis. Libertou mais de quinhentos escravos.
De uns tempos para cá, fico admirado com algumas exigências (ou não) para se trabalhar em algumas coisas. Existe um projeto de lei no Congresso que, se aprovado, vai exigir que para ser barista – o profissional que faz café expresso – será necessário ter um curso, ser diplomado na área. E penso: para fazer café, vai ser preciso ter diploma; para ser jornalista, coisa que consideram tão importante, não é preciso.
Claro que a profissão tem sido praticada com um certo desprezo pela ética, não é? Não por todo mundo, mas dá vergonha para um jornalista que respeite a profissão ver o que alguns, ou muitos, fazem com ela. E os seus praticantes não formados não são melhores. Ao contrário. Vejam as colunas de um bando de não formados nos jornais e nas revistas.
Bem… Para manter o costume de colocar nos meus textos um monte de frases e opiniões alheias, selecionei um monte delas. Infelizmente para nós jornalistas, a grande maioria não nos é favorável. Antes de entrar nelas, quero lembrar o que dizia um grande repórter (quase dois metros de altura, mas grande também na profissão), José Roberto Alencar (não formado): uma pessoa que não se sensibiliza diante de injustiças não serve para ser jornalista. Eu complementava: tem que ser curioso também. Minhas duas profissões principais, jornalista e geógrafo exigem que as pessoas sejam curiosas. Mas vejo jornalistas que parecem não ter o menor interesse pelo que fazem. E também não se incomodam diante de injustiças. Simplesmente obedecem.
Aí vai a lista de frases.
George Orwell: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.
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Gabriel García Márquez: “A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro”.
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Che Guevara: “Ser jornalista e não ser louco é uma contradição genética”.
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Julian Assange: “Se o jornalismo é bom, é controverso por natureza”.
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Marilyn Manson: “As pessoas são atraídas pelo sensacionalismo e a mídia incentiva isso. Você pode ser manipulado por isso ou torná-lo parte de sua arte. Eu o tornei parte da minha”.
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Malcolm X: “Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.
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Balzac: “O jornal é uma tenda na qual se vendem ao público as palavras da cor que se deseja”.
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Cláudio Abramo: “O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”.
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Cláudio Abramo, de novo: “Para ser jornalista é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem consigo definir direito?”.
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Marguerite Duras: “Os jornalistas são os trabalhadores manuais, os operários da palavra. O jornalismo só pode ser literatura quando é apaixonado”.
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Clarice Lispector: “Nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor. Aqui no jornal apenas falo com o leitor e agrada-me que ele fique agradado”.
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Oscar Wilde: “A diferença entre a literatura e o jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida”.
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Oscar Wilde, de novo: “O jornalismo moderno tem uma coisa a seu favor: ao oferecer-nos a opinião dos deseducados ele nos mantém em dia com a ignorância da comunidade”.
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Noam Chomsky: “A imprensa pode causar mais danos que a bomba atômica. E deixar cicatrizes no cérebro”.
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Napoleão Bonaparte: “Três jornais me fazem mais medo do que cem mil baionetas”.
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Tom Wolfe: “Só existem duas maneiras de fazer carreira em jornalismo: construindo uma boa reputação ou destruindo uma”.
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Victor Hugo: “Uma calúnia na imprensa é como a relva num belo prado: cresce por si mesma”.
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Eça de Queirós: “Nas nossas democracias, a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações – mesmo as boas”.
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Eça de Queirós, de novo: “Para aparecerem no jornal, há assassinos que assassinam”.
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Richard Nixon: “Sair na primeira página ou na página trinta depende do medo que eles têm de você”.
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Mick Jagger: “Desde que a minha foto saia na primeira página, não quero saber o que escreveram sobre mim na página 96”.
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Mino Carta: “Não vamos esmorecer na nossa crença de que jornalismo é algo que se faz com espírito crítico, fiscalizando o poder”.
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James Linde: “O jornalista é um servidor público, não um político”.
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Joel Silveira: “Jornalista não é aquele que toca na banda, é o que vê a banda passar”.
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Alberto Dines: “A sociedade que aceita qualquer jornalismo não merece jornalismo melhor”.
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Bernard Shaw: “Um jornal é um instrumento incapaz de discernir entre uma queda de bicicleta e o colapso da civilização”.
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Mark Twain: “Primeiro, apure os fatos. Depois, pode distorcê-los à vontade”.
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Adlai Stevenson: “Editor de jornal é alguém que separa o joio do trigo – e publica o joio”.
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Barão de Itararé (quando procurou emprego no jornal O Globo, Irineu Marinho perguntou: “O que você sabe fazer numa redação?”, e ele respondeu): “Tudo. Desde varredor até diretor. Aliás, acho que não há muita diferença”.
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Carlos Malheiros Dias: “A coragem de afirmar asneiras é uma das características da improvisação jornalística”.
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J. Liebling: “As pessoas não param de confundir com notícias o que leem nos jornais”.
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Gay de Girardin: “Não são os redatores que fazem o jornal, mas os assinantes”.
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Rebecca West: “Jornalismo: a capacidade de vencer o desafio de encher o espaço”.
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Eu: “Jornalistas que escrevem sobre economia, com poucas exceções, costumam dar tanta bola fora que deviam adaptar um chavão dos jornalistas esportivos: ‘A economia é uma caixinha de surpresas’”.
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Otto Bismarck: “Jornalista é uma pessoa que errou a sua vocação”.
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Frank Zappa: “Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler”.
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Luís Fernando Veríssimo: “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”.
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Jô Soares: “Por mais que essa frase possa parecer um chavão, a imprensa é a sentinela da democracia”.
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Deni Gould (sobre a imprensa): “Supõe, erra, distorce. Mas é como um ar poluído: não se vive sem ela”.
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Gilbert Chesterton: “Não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar(2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempoquinzenalmente, às terças. 
Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2017/05/02/cultura-inutil-jornalismo-pos-verdade-e-o-charuto-das-filipinas/

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Michael Moore, que previu ascensão de Trump, divulga 'lista do dia seguinte'

Para o cineasta, Trump é uma 'estrela de TV, cujo plano é destruir os dois partidos' e não há surpresa em sua vitória
por Redação RBA publicado 09/11/2016 14h21, última modificação 09/11/2016 15h04
REPRODUÇÃO/FACEBOOK/TRUMP
Trump
Michael Moore afirmou que todos devem parar de dizer que estão 'atordoados' e 'chocados'
São Paulo – O cineasta e ativista norte-americano Michael Moore, autor de artigo publicado em julho que previa a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, publicou hoje (9), em sua página no Facebook, um checklist com cinco pontos, que ele batizou de “lista do dia seguinte”, em referência aos desdobramentos da vitória do candidato republicano.
“Qualquer membro democrata do Congresso que não acordou esta manhã pronto para lutar, resistir e obstruir da mesma forma como os republicanos fizeram contra o presidente Obama, todos os dias, durante oito anos, devem sair do caminho e deixar àqueles de nós, que sabem marcar e liderar o caminho, a tarefa de parar a mesquinhez e a loucura que está prestes a começar”, afirma o item 3 da lista de Moore.
No texto no Facebook, o ativista também tenta dar um choque de realidade nos eleitores do partido Democrata, da candidata Hillary Clinton, que se dizem chocados com o resultado destas eleições: “Todos devem parar de dizer que estão 'atordoados' e 'chocados'. O que você quer dizer é que você estava em uma bolha e não estava prestando atenção aos seus colegas norte-americanos e seu desespero”, afirma, destacando que a raiva e a necessidade de vingança contra o sistema tem crescido nos Estados Unidos de forma negligenciada pelos dois principais partidos, o Democrata e o Republicano.
Moore também destaca que Trump é uma “estrela de TV, cujo plano é destruir os dois partidos” e que não há surpresa em sua vitória. “Ele é criatura e criação da mídia, que nunca terá poder sobre isso”, afirma. Para o cineasta, o resultado desta eleição ocorre à revelia da preferência popular, que claramente sinalizava a preferência por Hillary. “A única razão pela qual ele é presidente é por causa de uma ideia do século 18, arcaica, insana, chamada Colégio Eleitoral”, escreveu.

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2016/11/michael-moore-que-previu-a-ascensao-de-trump-divulga-lista-do-dia-seguinte-2434.html






As vanguardas e a dificuldade da

imprensa padrão em interpretar a disputa social








Os movimentos sociais em curso e em luta no Brasil e em diversas partes do mundo não apenas desafiam governos e estruturas que enfrentam e se contrapõem como também são um desafio de interpretação pra todo mundo. Para os que interpretam e escrevem a respeito, os que produzirão materiais de análise, de arte, informativos ou o que seja, com a intenção e na tentativa de explicar, posicionar, ver em perspectiva e observar o movimento das forças políticas, sociais e culturais. E também com o desejo de quase prever o desenrolar dessa disputa para saber que país e que sociedade teremos a seguir. Há análises que nos ajudam a perceber quem está nas ruas, o que está em jogo, nos fornecendo informações que não possuíamos antes e, especialmente, pontos de vista que não dispúnhamos. Mas e a grande imprensa? A imprensa padrão? Não sei se escolho bem a designação mas falo da imprensa que pretende hoje manter sua hegemonia de interpretação, nortear a sociedade para a ler os acontecimentos sociais e, ao mesmo tempo, tem dado maior espaço à análise de seus especialistas do que tem primado pela busca e checagem de informações, temas tão caros ao jornalismo clássico.
Pensando no que dizem Bird e Dardenne sobre a produção jornalística cotidiana como forma de dar tranquilidade, familiaridade e ordenação à sociedade, tenho observado como jornalistas e comentaristas dos grandes veículos, de grande audiência, especialmente de televisão, têm lido os movimentos sociais, suas manifestações e disputas. A capacidade de transformar a informação e a análise em afirmações precisas e simples no sentido do texto e da capacidade síntese têm dado lugar a uma falta de complexidade do olhar e a erros grosseiros mesmo. A perda da capacidade de análise tem sido proporcional talvez ao aumento do espaço para analistas televisivos. Quando na verdade deveria ser o oposto. Já que os comentaristas ganham espaço, espera-se que se qualifiquem nas suas análises, ângulos, objetos e caminhos pelos quais nos conduzem para olhar um acontecimento. Mas não. Penso também na reflexão de Ken Doctor para o Nieman Foudation, centro de estudos em jornalismo, relacionando a redução nos investimentos em produção de notícia e em contratação de jornalista com a queda da qualidade dos jornais, nacionais e também locais nos Estados Unidos. Ele diz que a redução do investimento não tinha como não resultar em um prejuízo para a sociedade. Acho que acontece o mesmo no Brasil.







Uma boa análise pode ser já produzida ao se observar a cobertura das movimentações de oposição ao governo Trump que começaram paralelas à sua posse no dia 20 e da anunciada Marcha das Mulheres, organizada e bem sucedida, para protestar contra as pautas anunciadas pelo novo governo no que se refere a direitos humanos, mudanças climáticas, imigração, saúde pública, enfim, praticamente todos os principais temas que o governo Obama e a sociedade americana conseguiram produzir conquistas. Na Globonews poderiam ter falado do protagonismo das mulheres, que no momento em que vários grupos são afetados, são a força social que assume a vanguarda do movimento. Poderiam comparar com o 2016 no Brasil, onde as mulheres foram também vanguarda da disputa política diversas vezes. Foi uma candidata mulher que perdeu as eleições nos Estados Unidos, mas que ganhou no voto popular. Foi no Brasil que foi derrubada uma presidenta e ascendeu uma nova figura de mulher como a atual primeira dama. Enfim, só pensando nas questões de gênero já se tem possibilidade de análise para um Jornal das Dez inteiro. Mas a escolha das análises, que reúnem jornalista em estúdio no Brasil e em outras cidades do país e dos Estados Unidos, é um descrédito de que a oposição ao governo gere algum tipo de freio ou de mudança no governo Trump. E não porque ele seja apenas impermeável, mas porque os jornalistas questionam a capacidade objetiva da oposição de gerar mudanças sociais. É o tal negócio. Quando Pedro fala de Paulo, isso fala mais sobre Pedro do que sobre Paulo. A questão não é a viabilidade dos protestos de demoverem Trump mas essa leitura nos leva a conhecer a capacidade (ou falta dela) dos analistas-jornalistas de entender o movimento social, suas possibilidades e complexidade.
A Globonews queria saber como objetivamente a oposição, materializada nos protestos de rua desde a posse de Trump, que teve a participação de atores e outros ícones da classe artística americana, irá conseguir alguma coisa com Trump. Um dos comentaristas parecia que esperava do movimento um poder objetivo e de decisão que apenas os governantes têm. E para além desse poder nada mais adiantaria. Talvez a questão fosse pensar que a democracia precisa ter ainda mais formas de participação direta e permanente do que apenas o voto para construir os rumos de um país e não deixar tudo na caneta do presidente. Avaliar que um presidente há tempo não era tão impopular e capaz de gerar, ao mesmo tempo, um esvaziamento de sua posse em comparação com o antecessor e protestos globais. Mas a ênfase foi sobre a ineficiência dos protestos. Muito diferente das coberturas que vimos meses antes no Brasil, cujo tom não apenas dos comentários mas de toda a movimentação de câmeras e repórteres e de tempo de cobertura incentivavam a participação e anunciavam que a pressão popular nas ruas, associada à própria cobertura, seria não só capaz de pressionar um governo por mudanças como derruba-lo. Quando os temas são direitos humanos, igualdade de gênero, defesa dos imigrantes e saúde pública, a falta de objetividade é apontada como motivo de ineficiência dos protestos. E não importa se há apoio dos famosos neste caso ou volume de pessoas nas ruas. A falta de uma suposta pauta objetiva ou de poder institucional condenará os protestos ao fracasso.







No dia seguinte a Marcha das Mulheres demonstra que tem mais consciência do complexo cenário político do que os analistas-jornalistas brasileiros. Antes de mais nada, estão as mulheres novamente na vanguarda da luta social contemporânea. Seja pela misoginia em alta ou pela capacidade histórica de auto-organização, os movimentos de mulheres têm sido a ponta dos protestos e da disputa política no Brasil e agora globalmente. Talvez também se explique porque é o movimento hoje que mais tem consciência e expressa sua diversidade ou da diversidade necessária e existente em qualquer coletivo. A Marcha das Mulheres Contra Trump demonstrou capacidade de reunir a complexidade dos que não apoiam os discursos preconceituosos do novo presidente ao mesmo tempo que avisam de início que as manifestações são afirmativas e maiores que o próprio Trump. E por isso se chama Marcha e não protesto. Porque querem defender direitos e dizem que “direito das mulheres é direitos humanos”. E traçam ações e defesas que pensam de forma ampla e também no cotidiano. Pensam sua atuação para além da reivindicação, não por não acreditarem na pressão sobre os governantes, mas porque fazerem parte de um processo que reflete sobre os mecanismos de autogestão social que se associe ao voto e que dê mais poder popular e à sociedade organizada. A lista de princípios trata de mudanças na Constituição com base na igualdade de gênero até defesas amplas sobre direitos dos imigrantes e da comunidade LGBT. A organização social que se traduz em demonstrações nas ruas, tomando este caso específico do momento americano mas também em outros cenários, considerando a sua diversidade e a complexidade de enfrentar o poder institucional, tem consciência do lugar onde atua. Os protestos anti-Trump e a Marcha das Mulheres têm um certo pragmatismo intrínseco à sociedade americana, e se constroi entre a pressão popular e as ações do cotidiano. O mais difícil é encontrar boas análises, especialmente no jornalismo standard, e neste texto em especial me refiro ao brasileiro, capazes de perceber essa diversidade, de avaliar papeis, limites e até possibilidade de ir além do que se possa considerar no caso de uma mobilização permanente. E diz mais ainda sobre como os mesmos comentaristas-jornalistas percebem a partir daí as manifestações populares no Brasil, a sua complexidade, idiossincrasias e como produz discursos que as acham eficientes quando derrubam governos populares mas ineficazes quando não são ‘objetivas’ ou enfrentam presidentes não permeáveis ou com maioria no Congresso Nacional.
O discurso standard do jornalismo tem dificuldade com análise, não consegue comentar sobre as forças sociais e sobre a permanente disputa que, sim, é desigual. Os protestos (lá ou cá) terão que ter grande volume para encarar a vitória de Trump e o poder que hoje ele manipula. Mas as pessoas, apesar de organizadas e buscando construir estratégias que garantam mais apoio popular para atingir as fissuras do poder, não protestam apenas pensando se são eficientes. Elas protestam porque é justo, porque têm uma ou várias causas, porque sozinhas jamais conseguiram nada e se quiserem que algo mude precisarão estar juntas.
O quanto é objetivo ou eficiente não deve ser cobrado. Apesar disso, e considerando a capacidade pragmatica da sociedade norte-americana, ouvi o trecho do discurso da atriz Scarlett Johansson quando pedia que no dia a dia as pessoas reforçassem o apoio a instituições que defem causas sociais e de direitos humanos, que doassem para essas causas, que se voluntariassem nas suas comunidades em instituições que trabalhassem pela igualdade de gênero e todas as lutas que estão ameaçadas com a chegada da Trump ao poder. Justamente pensando em resistir através da capacidade de construir a sociedade e a governança com outras ferramentas que contraponham um governo conservador com um governante fascista. Aliás, outro comentário dos jornalistas-comentaristas é que não se pode chamar Trump de fascista porque ele foi eleito. Para além da questão de que no voto popular ele ficou em segundo, não entenderam que uma pessoa, governante ou não, pode ser apontada como fascista se defender ou realizar atitudes ou políticas fascistas, mesmo que tenha ascendido ao poder através do voto. Os nazistas chegaram ao poder na Alemanha pelo voto popular, galgando ano após ano mais cadeiras do Parlamento alemão (o Reichstag). O jornalismo em crise passa por essa incapacidade de leitura social.







Fontes de imagens: jornais online como Público, Estadão, UOL, CNN.